A HORA DOS LEIGOS (Cont.)
Pe. José António Pagola
2. A experiência da comunhão eclesial
Mas o que
é esta comunhão de todos? Em que consiste? Esta comunhão não é de ordem sociológica. Não é fruto de um consenso conseguido pelo jogo das maiorias
e minorias até chegar a um acordo doutrinal ou pastoral.
Não é tão
pouco de ordem jurídica. Não se
consegue por decreto, de maneira institucional. Não é a autoridade hierárquica
que consegue a comunhão ou a unidade.
A
comunhão é criada pelo Espirito de Cristo,
presente em toda a Igreja e em cada um dos seus membros. A hierarquia não faz
senão presidir a essa comunidade que só pode ser criada pelo Espírito de Cristo
derramado nos nossos corações. Vamos deter-nos nesta comunhão de ordem
espiritual.
A primeira
coisa que devemos recordar é que o Espírito não é privilégio de um grupo ou de um
estado especial. O Espírito doa-se a toda a comunidade eclesial. “Num só
Espírito fomos baptizados e todos bebemos de um só Espírito (1 Co 12, 13). O
mesmo Espírito age em todos nós. É ele que cria a Igreja, é ele que lhe dá a
sua força, lhe infunde o seu dinamismo, a unifica e vivifica permanentemente. É
ele que cria a comunhão («koinonia»), a comunidade do Espírito. A sua primeira
acção é construir a comunhão eclesial. Não há na Igreja sectores que gozem da
garantia do Espírito e sectores privados do Espírito. Todo o Povo de Deus
possui o Espírito. O Espírito é para todos. «E se alguém não tem o Espírito de
Cristo, esse não é de Cristo.» (Rom 8,9).
O
Espírito nunca desfaz a comunhão, não desagrega o Povo de Deus. Os diversos
dons ou carismas (charismata) que se dão na Igreja devem ser entendidos e
vividos como manifestação e concretização da única graça (charis) do Espírito,
que anima toda a Igreja. Por isso «a manifestação do Espírito dá-se a cada um para
o bem comum» (1 Co 12, 7). O Espírito não separa ninguém dos demais, nem o situa
acima dos outros. Nem a hierarquia deve ser entendida como se ela fosse a primeira
depositária do Espírito de Cristo e que só a partir dela, o mesmo se transmite aos
demais.
Por ele, ninguém
pode pretender guardar para si o Espírito e menosprezar ou ignorar a acção do Espírito
nos outros. Essa é a grande tentação da hierarquia: crer que o Espírito tem que
passar necessariamente por ela para actuar, dinamizar e dirigir a sua Igreja. Pelo
contrário, a comunhão exige sentido de complementaridade, diálogo, colaboração,
correcção mútua. Necessitamos todos uns dos outros. «Não pode dizer o olho à mão:
não preciso de ti; nem a cabeça aos pés: não preciso de vós.» (1Co 12, 21). O Espírito
comunica os seus dons de tal maneira que todos necessitam de todos e ninguém pode
pensar que, com o seu dom do Espírito, se encontra acima dos demais.

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