A HORA DOS LEIGOS (final)
Pe, José António Pagola
VI –
PERFIL DO LEIGO CRISTÃO
De maneira breve, vamos
assinalar algumas características próprias do leigo cristão que é necessário ter
em conta para cultivar uma espiritualidade laical.
1. Seguidor de Cristo
A primeira característica que define o leigo cristão é
a sua adesão a Cristo, a sua resposta ao chamamento de Cristo, o seu seguimento
fiel. Aí está a fonte de toda a vocação cristã: na adesão incondicional à sua
pessoa e ao seu Evangelho. Aí está a fonte do ser e do trabalho laical.
Isto exige uma espiritualidade de seguimento e discipulado. O leigo sente-se chamado a encarnar os
mesmos sentimentos e atitudes que Cristo teve. Seguir Cristo é identificar-se
com ele. Aderir à sua pessoa, deixar-se configurar por ele, inspirar-se no seu
Espírito, olhar a vida com o olhar dele, tratar as pessoas como ele tratava,
pôr a esperança onde ele a punha, defender a sua causa … Ir-se fazendo
«cristão».
O Vaticano II proclama que «todos os cristãos, de qualquer estado ou condição, estão chamados à
plenitude da vida cristã e à perfeição do amor», naturalmente, a partir da
sua própria condição laical.
2. Ao serviço do Reino de Deus
Seguir Cristo é colocar-se ao serviço do Reino de Deus,
que é o objectivo a que Jesus se entregou, pelo qual viveu e morreu. Isto tem
diversas exigências.
A primeira é renunciar
a toda a classe de ídolos e falsos deuses
(dinheiro, bem estar, poder), para entregar o nosso ser apenas e só a Deus
nosso Pai e procurar só a sua vontade, que é a felicidade de toda e cada uma
das suas criaturas.
Para além disso, exige trabalhar para uma sociedade
onde reine Deus. Se Deus reina, não podem reinar os fortes sobre os fracos, os
ricos sobre os pobres, os homens sobre as mulheres, o Primeiro Mundo sobre o
Terceiro … Onde reina Deus como Pai, há-de reinar a fraternidade (não a falta
solidariedade), a justiça (não o abuso), a liberdade (não a opressão e a
servidão), a paz (não a violência), a verdade (não o engano e a mentira).
O leigo cristão deve saber com clareza para onde
dirigir os seus esforços e trabalhos, para onde há-de orientar a sua vocação
laical, onde há-de pôr o seu olhar, os seus objectivos, as suas aspirações.
3. Membro activo e responsável do Povo de Deus
Já o temos dito. É uma característica essencial. O
leigo deve sentir-se sujeito de pleno
direito na comunidade eclesial. É animado pelo Espírito que alenta toda a
Igreja. Com direito e obrigação de manifestar as suas necessidades, sugestões e
opiniões para o bem da Igreja. Com direito a tomar parte na vida e no andamento
da comunidade segundo a sua vocação, as suas qualidades e possibilidades.
Para que o leigo possa tomar parte na comunidade, é
importante o esforço para discernir e encontrar a própria vocação, o serviço
que cada um pode realizar, individualmente ou com o cônjuge, num grupo ou
movimento…
4. Enviado ao mundo
Seguidor convicto de Cristo, animado pelo Espírito
para o serviço do Reino de Deus, constituído sujeito integrante do Povo de Deus
com pleno direito, o leigo sente-se enviado
ao mundo, onde vai desenvolver a sua missão, através do testemunho e do compromisso transformador.
Isto exige descobrir a vocação matrimonial e a
espiritualidade conjugal, o viver a vocação cristã de mãe ou pai, descobrir o
valor cristão do trabalho e da profissão secular, a importância da
transformação da sociedade, o valor cristão do ócio e do tempo livre …
O leigo cristão tem que estar muito ciente de que é
chamado a ser testemunha, apóstolo, militante, agente transformador. Isso é ser
«praticante». Havia que ampliar o
conteúdo de «praticante» para além da participação na Eucaristia dominical e
fazer que abranja na prática, o comportamento na vida e na sociedade.
5. Enraízado na Palavra de Deus e na Eucaristia
A vida do leigo alimenta-se em duas fontes: a Palavra
de Deus e a Eucaristia dominical.
É de grande importância a leitura pessoal habitual, a sós ou em grupo, o contacto
frequente com o Evangelho (aprendizagem, prática, método, no casal ou no grupo)
… E juntamente com tudo isto, a Eucaristia
dominical participada de maneira gozosa, activa, consciente, comungando com
Cristo e com a comunidade, alimentando a própria fé e a vocação cristã.
Só assim se pode ler o livro da vida, escutar Deus nos
acontecimentos, ver Cristo nos pobres, fazer uma leitura crente da realidade,
comungar com homens e mulheres, crescer no serviço do Reino de Deus.
6. Radicalidade evangélica
A espiritualidade do leigo não é menos exigente do que
outras formas de vida, pois está marcada pela radicalidade evangélica do
seguimento. É falsa aquela divisão clássica que separava os cristãos
em dois sectores: o sector chamado a uma vida de perfeição pela consagração dos
três votos (pobreza, castidade e obediência) e a maioria dos cristãos chamados
somente ao cumprimento dos mandamentos de Deus: cristãos de segunda categoria.
Todos estamos chamados a seguir Cristo segundo o
espírito das bem-aventuranças, todos havemos de viver com o coração entregue a
Deus como único Senhor, todos havemos que usar os bens materiais de e para o
amor, todos havemos que procurar a obediência à vontade do Pai. Não há estados
mais ou menos perfeitos, mas antes formas diferentes de escutar e viver a
chamada ao seguimento.
O que temos, sim, é que destacar algumas virtudes e
atitudes que reclamam hoje um cuidado mais especial no mundo actual de
competitividade, consumo, aparência, agressividade … Assim a misericórdia, a
honra, a liberdade pessoal, o desapego, a luta incansável pela justiça, a
proximidade e a solidariedade com os mais necessitados, o perdão e a atitude de
reconciliação, a esperança …
7. A formação
Não é possível um crescimento responsável do laicado
se não se cuida e promove devidamente a sua formação. Só com uma formação e
capacitação adequadas, poderão os leigos, educados em outros preceitos e outra
sensibilidade, adquirir personalidade, segurança e iniciativa, dentro do Povo
de Deus.
É importante promover meios, jornadas, processos que
ajudem a descobrir a personalidade cristã laical e a sua missão na Igreja e no
mundo.
Não temos que esperar pela actuação dos presbíteros ou
da hierarquia. São os mesmos leigos e leigas que têm de tomar a iniciativa para
pedir, promover e pôr em marcha os instrumentos e serviços necessários.
(Tradução de Ana Maria Pimenta)
Beijos e Abraços
Ana Maria