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segunda-feira, 7 de outubro de 2013


SEMEAR A FÉ NO CAMPO E NA CIDADE

Outubro 6, 2013

1. Falo do umbral do outono, de uma praça carregada de metáforas. Moro aqui debaixo deste céu. Claro que durmo ao relento. Sou pobre e puro. Pedinte apenas à porta do espírito. Como os plátanos no púlpito das praças, abrigo os pássaros. Atiram-me pedras os meninos. O meu lugar é aqui, de bruços nas palavras, pedra a pedra construindo o pátio do poema. É assim que hoje enfrento, em estilo diferente, os dizeres deste Domingo XXVII do Tempo Comum.
 2. Oiço bater à porta. Serás tu ainda? Que fruto trazes nas tuas mãos despidas? Um balde? O mar? O mar num balde? As rochas a estalar? O lume a arder em febre? Uma estrela cadente envolta em neblina?
 3. Trazes a história de uma semente pequenina, microscópica. Dizes, para espanto meu, que, lançada à terra, dela nascerá uma árvore grande, em cujos ramos vêm abrigar-se os pássaros do céu, fazendo dela uma lareira carregada de alegria. E dizes, outra vez para espanto meu, que a FÉ tem o tamanho e o virtuosismo dessa semente pequenina, que semeada no meu coração e no coração do mundo pode desenraizar o que nos parece seguro, sólido, assegurado, fazer ruir os nossos cálculos mais estudados, fazer florir o alcatrão das nossas estradas, fazer sorrir a nossa história desgraçada, arrancar embondeiros, plantar no mar aquilo que parece só poder viver na terra.
 4. Acrescentas logo, sempre para espanto meu, que uma vida de serviço e da máxima simplicidade é a melhor. E que é também a melhor pregação. Servir por amor. Sem tempo nem contrato. Sem cláusulas. Doação total. Dar a vida como tu, Senhor e Servo.
 5. Para me dizeres tanto, foste buscar metáforas ao campo: a semente, as árvores e o servo (Lucas 17,5-10). E do campo, levas-me a visitar o jardim de Habacuc. Poucos saberão, mas Habacuc é o nome de uma planta de jardim. Está de passagem. De manhã viceja, à tarde seca. É preciso ir depressa. Até porque Habacuc ainda tem de ir à cidade e escrever num grande painel publicitário que «o não-recto perecerá, mas o justo viverá pela FÉ» (2,4).
 6. A FÉ é a tal sementinha que pode virar do avesso a nossa vida, a nossa casa, a nossa rua, a nossa cidade, a nossa história.
 7. Corre e demora-te a ver esse painel, metáfora erguida na cidade, e aprende a FÉ, isto é, a FIDELIDADE. S. Paulo demorou-se longamente a contemplar esse painel, de tal maneira que gravou os seus dizeres na alma e em Romanos 1,17 e Gálatas 3,11.
 8. Sim, Timóteo (2 Tm 1,6-8.13-14), reacende o dom de Deus que arde em ti, não tenhas vergonha do Evangelho, dá testemunho de Jesus cristo, guarda a FÉ!

António Couto
Bispo de Lamego

sexta-feira, 12 de abril de 2013

                          
                           A Coragem da Resignação

A palavra «resignação» não tem boa reputação.
Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. 

E todavia, não é isso.
Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibilidade?
A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. 

Mas é uma imagem ridícula.
Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem.
A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação.
Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. 

Mas o espec­táculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer.
Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige.


Vergílio Ferreira (1916-1997)

domingo, 20 de janeiro de 2013



 A HORA DOS LEIGOS (final) 
Pe, José António Pagola

 


VI – PERFIL DO LEIGO CRISTÃO
De maneira breve, vamos assinalar algumas características próprias do leigo cristão que é necessário ter em conta para cultivar uma espiritualidade laical.

1. Seguidor de Cristo
A primeira característica que define o leigo cristão é a sua adesão a Cristo, a sua resposta ao chamamento de Cristo, o seu seguimento fiel. Aí está a fonte de toda a vocação cristã: na adesão incondicional à sua pessoa e ao seu Evangelho. Aí está a fonte do ser e do trabalho laical.

Isto exige uma espiritualidade de seguimento e discipulado. O leigo sente-se chamado a encarnar os mesmos sentimentos e atitudes que Cristo teve. Seguir Cristo é identificar-se com ele. Aderir à sua pessoa, deixar-se configurar por ele, inspirar-se no seu Espírito, olhar a vida com o olhar dele, tratar as pessoas como ele tratava, pôr a esperança onde ele a punha, defender a sua causa … Ir-se fazendo «cristão».

O Vaticano II proclama que «todos os cristãos, de qualquer estado ou condição, estão chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição do amor», naturalmente, a partir da sua própria condição laical.

2. Ao serviço do Reino de Deus
Seguir Cristo é colocar-se ao serviço do Reino de Deus, que é o objectivo a que Jesus se entregou, pelo qual viveu e morreu. Isto tem diversas exigências.

A primeira é renunciar a toda a classe de ídolos e falsos deuses (dinheiro, bem estar, poder), para entregar o nosso ser apenas e só a Deus nosso Pai e procurar só a sua vontade, que é a felicidade de toda e cada uma das suas criaturas.

Para além disso, exige trabalhar para uma sociedade onde reine Deus. Se Deus reina, não podem reinar os fortes sobre os fracos, os ricos sobre os pobres, os homens sobre as mulheres, o Primeiro Mundo sobre o Terceiro … Onde reina Deus como Pai, há-de reinar a fraternidade (não a falta solidariedade), a justiça (não o abuso), a liberdade (não a opressão e a servidão), a paz (não a violência), a verdade (não o engano e a mentira).

O leigo cristão deve saber com clareza para onde dirigir os seus esforços e trabalhos, para onde há-de orientar a sua vocação laical, onde há-de pôr o seu olhar, os seus objectivos, as suas aspirações.

3. Membro activo e responsável do Povo de Deus
Já o temos dito. É uma característica essencial. O leigo deve sentir-se sujeito de pleno direito na comunidade eclesial. É animado pelo Espírito que alenta toda a Igreja. Com direito e obrigação de manifestar as suas necessidades, sugestões e opiniões para o bem da Igreja. Com direito a tomar parte na vida e no andamento da comunidade segundo a sua vocação, as suas qualidades e possibilidades.
Para que o leigo possa tomar parte na comunidade, é importante o esforço para discernir e encontrar a própria vocação, o serviço que cada um pode realizar, individualmente ou com o cônjuge, num grupo ou movimento…

4. Enviado ao mundo
Seguidor convicto de Cristo, animado pelo Espírito para o serviço do Reino de Deus, constituído sujeito integrante do Povo de Deus com pleno direito, o leigo sente-se enviado ao mundo, onde vai desenvolver a sua missão, através do testemunho e do compromisso transformador.

Isto exige descobrir a vocação matrimonial e a espiritualidade conjugal, o viver a vocação cristã de mãe ou pai, descobrir o valor cristão do trabalho e da profissão secular, a importância da transformação da sociedade, o valor cristão do ócio e do tempo livre …

O leigo cristão tem que estar muito ciente de que é chamado a ser testemunha, apóstolo, militante, agente transformador. Isso é ser «praticante». Havia que ampliar o conteúdo de «praticante» para além da participação na Eucaristia dominical e fazer que abranja na prática, o comportamento na vida e na sociedade.

5. Enraízado na Palavra de Deus e na Eucaristia
A vida do leigo alimenta-se em duas fontes: a Palavra de Deus e a Eucaristia dominical.

É de grande importância a leitura pessoal habitual, a sós ou em grupo, o contacto frequente com o Evangelho (aprendizagem, prática, método, no casal ou no grupo) … E juntamente com tudo isto, a Eucaristia dominical participada de maneira gozosa, activa, consciente, comungando com Cristo e com a comunidade, alimentando a própria fé e a vocação cristã.

Só assim se pode ler o livro da vida, escutar Deus nos acontecimentos, ver Cristo nos pobres, fazer uma leitura crente da realidade, comungar com homens e mulheres, crescer no serviço do Reino de Deus.

6. Radicalidade evangélica
A espiritualidade do leigo não é menos exigente do que outras formas de vida, pois está marcada pela radicalidade evangélica do seguimento. É falsa aquela divisão clássica que separava os cristãos em dois sectores: o sector chamado a uma vida de perfeição pela consagração dos três votos (pobreza, castidade e obediência) e a maioria dos cristãos chamados somente ao cumprimento dos mandamentos de Deus: cristãos de segunda categoria.

Todos estamos chamados a seguir Cristo segundo o espírito das bem-aventuranças, todos havemos de viver com o coração entregue a Deus como único Senhor, todos havemos que usar os bens materiais de e para o amor, todos havemos que procurar a obediência à vontade do Pai. Não há estados mais ou menos perfeitos, mas antes formas diferentes de escutar e viver a chamada ao seguimento.

O que temos, sim, é que destacar algumas virtudes e atitudes que reclamam hoje um cuidado mais especial no mundo actual de competitividade, consumo, aparência, agressividade … Assim a misericórdia, a honra, a liberdade pessoal, o desapego, a luta incansável pela justiça, a proximidade e a solidariedade com os mais necessitados, o perdão e a atitude de reconciliação, a esperança …

7.  A formação
Não é possível um crescimento responsável do laicado se não se cuida e promove devidamente a sua formação. Só com uma formação e capacitação adequadas, poderão os leigos, educados em outros preceitos e outra sensibilidade, adquirir personalidade, segurança e iniciativa, dentro do Povo de Deus.

É importante promover meios, jornadas, processos que ajudem a descobrir a personalidade cristã laical e a sua missão na Igreja e no mundo.

Não temos que esperar pela actuação dos presbíteros ou da hierarquia. São os mesmos leigos e leigas que têm de tomar a iniciativa para pedir, promover e pôr em marcha os instrumentos e serviços necessários.
(Tradução de Ana Maria Pimenta) 

 
Beijos e Abraços
Ana Maria
 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013


 
A HORA DOS LEIGOS (Cont.)
Pe. José António Pagola
 

(...)
4.Compromisso transformador
Mas o leigo cristão não está presente no mundo de qualquer maneira. A sua presença é motivada por um inequívoco compromisso transformador a favor de um mundo mais humano. Por isso, posiciona-se sempre a favor dos que sofrem de injustiça e da falta de solidariedade social.

Segundo o Concílio, a presença dos seculares no mundo, deve ser transformadora: «Os seculares, devem procurar, na medida das suas forças, sanear as estruturas e os ambientes do mundo.» O seu compromisso está direccionado para transformar ambientes, melhorar costumes, corrigir estruturas, evangelizar critérios de actuação, estados de opinião, apresentações colectivas, etc. Assim dizia Paulo VI: «Evangelizar significa para a Igreja levar a Boa Nova a todos os ambientes da humanidade e, com o seu influxo, transformar, a partir de dentro, e renovar a mesma humanidade … converter a consciência pessoal e colectiva dos homens, a actividade em que estão comprometidos, a sua vida e ambiente concretos.» Eles são chamados como ninguém a ser «sal», «luz» e «fermento». Disse João Paulo II: «As imagens evangélicas do sal, da luz e do fermento, ainda que se refiram indistintamente a todos os discípulos de Jesus, têm também uma aplicação específica aos fiéis leigos.»

5.Fazer presente a Igreja no mundo
Esta presença evangélica dos leigos no meio do mundo não é algo meramente individual e privado. Segundo, o Concílio, estão ali «fazendo a Igreja presente e operante». O leigo «converte-se, por sua vez, em testemunha e instrumento vivo da missão da mesma Igreja.»

Uma Igreja reduzida à sua vida interna, centrada no culto e na catequese, anunciando o Evangelho no interior dos templos, privada de leigos que, encarnados no mundo, façam presente o Reino de Deus, é uma Igreja sem força evangelizadora, sem vigor salvador.

Por isso, o Concílio disse: «Os leigos … são chamados a fazer particularmente presente e operante a Igreja em lugares e condições onde ela não pode ser sal da terra senão através deles. Assim, pois, todo o leigo, pelos mesmos dons que lhe foram conferidos, converte-se em testemunha e instrumento vivo, por sua vez, da mesma missão da Igreja na medida do dom de Deus. (Ef 4,7)».

6.Trazer a experiência do mundo ao interior da Igreja
Há também que recordar uma tarefa que às vezes se encontra em falta entre nós. Os leigos são chamados a trazer à Igreja a experiência de vida, os problemas, as preocupações, as interrogações do homem e da mulher de hoje. A partir da sua própria experiência no meio do mundo, devem «secularizar a Igreja», torná-la mais próxima da vida, mais humana, encarná-la na experiência das gentes. «Habituem-se os seculares a trabalhar na paróquia, intimamente unidos com os seus sacerdotes; a apresentar à comunidade da Igreja os problemas próprios do mundo, os assuntos que se referem à salvação dos homens, para examiná-los e solucioná-los através de uma discussão racional; e ajudar, segundo as suas forças, a toda a empresa apostólica e missionária da sua família eclesial».

7.O apostolado associado
São diversas as razões em que a Igreja se baseia para insistir hoje na necessidade de promover um apostolado associado de leigos, criando grupos, associações, movimentos, comunidades, etc. Ainda que o compromisso da maioria dos leigos seja individual e seja levado a cabo no âmbito natural e próximo de onde cada um vive (família, trabalho, vizinhança, etc), é importante impulsionar o associativismo. As razões são muitas.

a)          É mais fácil cuidar da própria espiritualidade laical em grupo, aprendendo, a partir da comunicação e do contraste de experiências, a fazer uma síntese entre fé e vida.
b)          É maior a possibilidade de uma formação integral, sistemática e organizada, uma aprendizagem do método da revisão de vida, etc.
c)          É mais fácil amadurecer a consciência de pertença à Igreja e a identidade comunitária e eclesial adulta.
d)          É mais fácil discernir a própria vocação em grupo, assumir responsabilidades e rever os compromissos adquiridos entre todos.
e)          É maior a possibilidade de sustentar o testemunho e incidir no compromisso transformador de um determinado âmbito (Movimento Familiar Cristão, Cristãos do Ensino), ou num ambiente concreto (Apostolado do Mar, Apostolado Rural, movimentos especializados, etc.)
Esta presença social é mais significativa e eficiente.
 (...)

Beijos e abraços
Ana Maria