Páginas

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

UNICAMENTE OBRA DAS SUAS MÃOS


“Eu te louvo porque me fizeste maravilhoso; são admiráveis as tuas obras; tu me conheces por inteiro.” (Salmo 139:14)

Sou filha de militar. Juntamente com o meu irmão mais velho, crescemos num ambiente de bases do exército, quartéis, paradas, toques de corneta, disciplina e rigor, valores da pátria, de honra, de ética. Fomos vivendo, aqui e ali, à medida que o meu pai ia sendo destacado para as várias e sucessivas terras, levando a família toda atrás. Vivi em África, por várias vezes.

Alguém poderá comentar que esse tipo de vida não é benéfico para uma criança. Pelo contrário, classifico as experiências como benefícios, porque reconheço, hoje, que Deus me colocou naquelas específicas circunstâncias, para me moldar. Sinto-me abençoada por ter sido uma criança-militar.

Crescer num tal ambiente, permitiu-me ter uma ideia muito abrangente de mundos diferentes. Todas as vezes que o meu pai recebia ordem-de-marcha, a família rejubilava de alegria, ansiando pela novidade, por poder descobrir coisas novas e diferentes do que estávamos habituados.

Deliciei-me com as paisagens africanas, com as florestas, os animais, as praias, a vida marinha. Aprendi a distinguir entre o som emitido por um javali e o de uma hiena, habituei-me a diferenciar os cânticos dos pássaros e os ruídos dos insectos. Explorei as águas dos rios que corriam caudalosos e os que seguiam o seu curso entre pedras e sucalcos. Senti com as mãos a lama das suas margens e as areias finas que me fugiam por entre os dedos. Cresci a apreciar o pôr-do-sol e a viajar distâncias enormes entre terras, por entre montanhas e planícies encharcadas de verde. Era sempre uma festa, quando, numa das terra onde vivemos, tínhamos que ir buscar água potável a um poço perto de casa. O meu irmão e eu regateávamos, ou melhor, "negociávamos" esse privilégio...

Cada uma destas experiências formou, sem dúvida, a minha personalidade e as minhas emoções. Aprendi a fazer amigos muito facilmente, a comunicar-me com eles e a dizer-lhes adeus, sempre que necessário. Quando tínhamos que nos mudar de terra, despedia-me dos meus melhores amigos e amigas, muitos deles nativos da terra, ansiando, excitada, chegar ao novo local para fazer novos amigos. Aprendi a conversar com facilidade, tornei-me uma pessoa dada e falava confortavelmente com quem quer que fosse, independentemente das diferenças que pudessem existir.

É por isso que não me importo nada de me dirigir a alguém que entre na Igreja, ou em qualquer outro espaço, pela primeira vez, para o/a acolher. Sei como essas pessoas se sentem, por isso, apresso-me a apresentá-las a outras pessoas, para que aos poucos se vão integrando. Não deve haver nada pior do que alguém entrar num espaço com estranhos e sentir que não é bem acolhido!!!!! Já passei por isso e sei como é doloroso …

Quando o meu pai deixou de ser enviado para outras terras, devido a alterações políticas na vida dos países, fiquei entristecida: já não podia pegar na minha bicicleta e ir, com os amigos, à descoberta dos quartéis e seus arredores, já não podia ir ao campo de obstáculos ver os cavalos a serem treinados, nem pedir ao guardador militar das cavalariças uma mão-cheia de açúcar mascavado (que davam aos cavalos) e que eu e o meu irmão lambíamos, sofregamente, cheios de alegria e excitação! Já não podíamos surripiar o carro ao meu pai e, mesmo sem carta, ir para a pista militar de atletismo ver se éramos capazes de o conduzir! Já não era possível fazermos competições de andar de bicicleta, o mais tempo possível, sem mãos; ou ver quem era capaz de trepar por um mamoeiro do quintal, para ir lá acima colher um mamão maduro, ou escalar uma árvore para apanhar uma maçã-da-índia e comê-la na hora.

Foi quando regressámos, da primeira vez, e que fui para o liceu que me apercebi que havia pessoas de cores e classes diferentes. Essa diferença era bem patente no trato que tinham para com elas. Reparei que as pessoas da mesma raça, da mesma cor, do mesmo grupo étnico se agrupavam, talvez por instinto de auto-defesa. Estranhei bastante esta situação, pois nos ambientes onde tinha vivido não havia nada disso. Éramos todas crianças, éramos todos amigos, embora todos diferentes. Não havia separação e assim, aprendi a aceitar os outros como seres únicos e preciosos. As diferenças nunca foram importantes para nós. Andávamos todos juntos porque nos divertíamos ou tínhamos interesses comuns. A raça não fazia parte da equação da amizade, nas bases militares por onde andámos.

Somos todos diferentes. Podemos pensar que somos a norma, mas não somos! Ninguém é! Deus fez cada um ÚNICO – física e emocionalmente. Ele escolheu nações, regiões, estados, cidades, escolas e famílias específicas, para cada uma das Suas criaturas.

Todas as escolhas que Ele fez para a minha vida,
tornam-me única para Sua glória.

Para reflectir:
Que experiências contribuem para que sejas único/a? Que acontecimento planeou Deus na tua vida para Sua glória.

Beijos e abraços
Ana Maria




Sem comentários: