SEMEAR A FÉ NO CAMPO E NA CIDADE
Outubro 6, 2013
1. Falo do umbral do outono, de uma praça
carregada de metáforas. Moro aqui debaixo deste céu. Claro que durmo ao
relento. Sou pobre e puro. Pedinte apenas à porta do espírito. Como os
plátanos no púlpito das praças, abrigo os pássaros. Atiram-me pedras os
meninos. O meu lugar é aqui, de bruços nas palavras, pedra a pedra
construindo o pátio do poema. É assim que hoje enfrento, em estilo
diferente, os dizeres deste Domingo XXVII do Tempo Comum.
2. Oiço bater à porta. Serás tu ainda?
Que fruto trazes nas tuas mãos despidas? Um balde? O mar? O mar num
balde? As rochas a estalar? O lume a arder em febre? Uma estrela cadente
envolta em neblina?
3. Trazes a história de uma semente
pequenina, microscópica. Dizes, para espanto meu, que, lançada à terra,
dela nascerá uma árvore grande, em cujos ramos vêm abrigar-se os
pássaros do céu, fazendo dela uma lareira carregada de alegria. E dizes,
outra vez para espanto meu, que a FÉ tem o tamanho e o virtuosismo
dessa semente pequenina, que semeada no meu coração e no coração do
mundo pode desenraizar o que nos parece seguro, sólido, assegurado,
fazer ruir os nossos cálculos mais estudados, fazer florir o alcatrão
das nossas estradas, fazer sorrir a nossa história desgraçada, arrancar
embondeiros, plantar no mar aquilo que parece só poder viver na terra.
4. Acrescentas logo, sempre para espanto
meu, que uma vida de serviço e da máxima simplicidade é a melhor. E que
é também a melhor pregação. Servir por amor. Sem tempo nem contrato.
Sem cláusulas. Doação total. Dar a vida como tu, Senhor e Servo.
5. Para me dizeres tanto, foste buscar
metáforas ao campo: a semente, as árvores e o servo (Lucas 17,5-10). E
do campo, levas-me a visitar o jardim de Habacuc. Poucos saberão, mas
Habacuc é o nome de uma planta de jardim. Está de passagem. De manhã
viceja, à tarde seca. É preciso ir depressa. Até porque Habacuc ainda
tem de ir à cidade e escrever num grande painel publicitário que «o
não-recto perecerá, mas o justo viverá pela FÉ» (2,4).
6. A FÉ é a tal sementinha que pode virar do avesso a nossa vida, a nossa casa, a nossa rua, a nossa cidade, a nossa história.
7. Corre e demora-te a ver esse painel,
metáfora erguida na cidade, e aprende a FÉ, isto é, a FIDELIDADE. S.
Paulo demorou-se longamente a contemplar esse painel, de tal maneira que
gravou os seus dizeres na alma e em Romanos 1,17 e Gálatas 3,11.
8. Sim, Timóteo (2 Tm 1,6-8.13-14),
reacende o dom de Deus que arde em ti, não tenhas vergonha do Evangelho,
dá testemunho de Jesus cristo, guarda a FÉ!
António Couto
Bispo de Lamego

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